Fundamentalismo religioso, desinformação e antissemitismo: as engrenagens do neonazismo no Brasil contemporâneo
- Andressa Garcez
- 28 de jan.
- 3 min de leitura
Por: Andressa Garcez Este trabalho analisa a peça impressa “Holocausto: Vítimas ou Réus?”, distribuída nas ruas do Rio de Janeiro em 2025. Parte-se da hipótese de que o material constitui uma prática discursiva de desinformação articulada, que mobiliza elementos religiosos, políticos e históricos de modo fraudulento, com o objetivo de produzir pânico moral e reforçar ideologias supremacistas e fundamentalistas.
A base teórica articula conceitos centrais para compreender a radicalização contemporânea. A crítica da Escola de Frankfurt, especialmente Adorno e Horkheimer (1985), sustenta a análise sobre como discursos de extrema direita constroem inimigos imaginários e instrumentalizam o ódio como forma de coesão social.
Para Adorno (2015), figuras extremistas como Tupirani Lores operam além da lógica racional e utilizam-se de manipulações psíquicas e afetivas que suspendem o pensamento crítico.
O conceito de fundamentalismo, segundo Cunha (2023), permite entender como lideranças
religiosas brasileiras adotam uma visão bélica e teocrática, marcada por negação científica, rejeição à pluralidade cultural e étnica e oposição a direitos sexuais e reprodutivos, o que reforça práticas autoritárias e antidemocráticas.
Metodologicamente, a pesquisa combina a análise discursiva exploratória do panfleto com o instrumental da Classificação Conceitual da Desinformação de Brisola
(2021).
O modelo possibilita mapear elementos textuais e simbólicos que constroem falsificações históricas e apelos emocionais, articulados a escolhas lexicais e referências teológicas.
Os resultados mostram uma manipulação intencional da memória do Holocausto, invertendo papéis históricos e transformando o judeu em “réu” em uma lógica antissemita que ecoa o nazismo.
A retórica mobiliza trechos bíblicos, figuras do imaginário cristão e teorias conspiratórias, associando-as a uma suposta perseguição dos próprios fundamentalistas.
Tal mecanismo repete-se em ambientes digitais, como os blogs Brasil Maldito (Lores, 2025a) e Restauração (Lores, 2025b), nos quais Lores reforça seu discurso messiânico, vitimista e excludente na intenção de confirmar a articulação entre as esferas online e offline.
O recorte contextual considera a ascensão global da extrema direita, exemplificada pela eleição de Trump e pela saudação de caráter nazista feita por Elon Musk (BBC, 2025), no mesmo mês em que o panfleto circulava pelo Rio de Janeiro.
Soma-se a isso a intensificação do fundamentalismo religioso cristão no Brasil, que
oferece terreno fértil para discursos de exclusão.
Conclui-se que a instrumentalização do fundamentalismo religioso, aliada a estratégias de desinformação, permite que líderes como Lores construam realidades paralelas, sustentadas por deturpações históricas e leituras seletivas da Bíblia.
Esse processo legitima práticas de ódio, fragiliza pilares democráticos e naturaliza preconceitos, antissemitismo e violência simbólica. Logo, a pesquisa reforça a urgência de uma reflexão crítica sobre os vínculos entre comunicação, extremismo e religião no cenário político atual. Embora restrito a um estudo de caso, o trabalho propõe ampliar a discussão sobre a desinformação para além do ambiente digital e, como contribuição, evidencia que a desinformação não se limita às redes sociais, mas se adapta a diferentes mídias clássicas de propaganda extremista.
Referências
ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos 3 filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. ADORNO, Theodor. Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Editora Unesp, 2015.
BBC. Gesto de Elon Musk em evento de Trump gera comparações com saudação nazista.
[S. l.], 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cd7dvp3980jo. Acesso
em: 27 abr. 2025. BRISOLA, Anna Cristina C. de A.S. Competência Crítica em Informação como resistência à
sociedade da desinformação sob um olhar Freiriano: Diagnósticos, epistemologia e
caminhos ante as distopias informacionais contemporâneas. Rio de Janeiro, 2021. 295 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021. Disponível em:
https://ridi.ibict.br/handle/123456789/1165. Acesso em: 01 fev. 2025. CUNHA, Magali. Fundamentalismo(s). In: Dicionário para entender o campo religioso:
volume 1. Rio de Janeiro: Instituto de Estudos da Religião, 2023, p. 149–157. Disponível em: https://iser.org.br/publicacao/dicionario-para-entender-o-campo-religioso-brasileiro/. Acesso em: 22 fev. 2025. LORES, Tupirani da Hora. BRASIL MALDITO. [S. l.], 2025a. Disponível em:
https://brasilmaldito.com/. Acesso em: 15 mar. 2025. LORES, Tupirani da Hora. RESTAURAÇÃO. [S. l.], 2025b. Disponível em:
https://restauracao.net/. Acesso em: 15 mar. 2025.
Link completo nos anais: https://sistemas.intercom.org.br/pdf/submissao/nacional/23/07082025195642686da22a539e3.pdf





Comentários