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Reconhecimento Facial como Estrutura para um panóptico racial.


Sob a promessa de mais segurança, uma revolução silenciosa e digital avança pelas

cidades do Brasil. Centenas de projetos de tecnologia de reconhecimento facial (TRF) estão

sendo implementados em larga escala, colocando quase 40% da população sob o olhar de

algoritmos. Com um investimento público que já ultrapassa R$160 milhões, especialistas e

ativistas alertam: essa nova forma de vigilância não é neutra e pode estar aprofundando

desigualdades históricas, transformando o preconceito em código.

Um levantamento nacional do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), feito

em 2024, revelou um cenário alarmante. Existem 337 projetos de TRF ativos no país, a

maioria implementados sem transparência ou debate público. A eficácia da tecnologia é

questionável e seus erros são perigosos. Estudos internacionais, como o realizado por

Grother; Ngan e Hanaoka (2019), no National Institute of Standards and Technology (NIST),

laboratório científico do Departamento de Comércio dos Estados Unidos da América,

mostram que os sistemas falham até cem vezes mais ao identificar rostos negros. No Brasil,

a consequência é brutal: 90% das pessoas presas com o auxílio da tecnologia em 2019

eram negras.


O caso de São Paulo, com o projeto "Smart Sampa", é emblemático. A prefeitura planeja instalar 20 mil novas câmeras, criando um dos maiores sistemas de vigilância do mundo. Para críticos, o projeto representa a consolidação de um "panóptico digital" que em vez de proteger, servirá para controlar populações periféricas e reprimir movimentos sociais.


Um panóptico, conceito de prisão do século XVIII por Jeremy Bentham, permite que um

único vigilante observe todos os prisioneiros sem que estes saibam quando. Essa

assimetria de poder induz autocontrole. Michael Foucault expandiu a ideia para as

sociedades de controle, onde a vigilância constante e invisível molda o comportamento

social.


A tecnologia, desenvolvida majoritariamente no Norte Global, herda uma lógica de poder

herdada do período colonial. Frantz Fanon, um dos pensadores mais influentes do século

XX no campo da filosofia, psicologia e teoria pós-colonial, escreveu sobre como o "olhar

branco" transforma o corpo negro em objeto. Hoje, o algoritmo assume esse papel,

operando com uma objetividade que mascara um preconceito histórico.


Mas a resistência cresce. Movimentos como a campanha "Tire Meu Rosto da Sua Mira" e

laboratórios de dados em favelas, como o Data_labe, da Favela da Maré, no Rio de Janeiro

(RJ), lutam contra essa vigilância massiva. Eles propõem uma "tecnodiversidade", onde a tecnologia seja desenvolvida a partir de outras realidades e para outros fins que não o controle.


Além disso, o CESeC possui um portal de investigação de todos esses projetos no

Brasil, o qual foi intitulado de O Panóptico, fazendo alusão ao conceito trazido inicialmente

por Jeremy Bentham, e referenciado posteriormente por Michael Foucault, contrariando a

simples ideia de estrutura “vigilante”.


A encruzilhada está posta: seguiremos o caminho de uma sociedade vigiada por algoritmos

enviesados ou construiremos um futuro onde a tecnologia sirva à justiça social?

Considerando a velocidade dos avanços dessas tecnologias, é crucial que o Estado

assegure os direitos fundamentais da população, a qual deve também exigir transparência

antecipada nessas negociações. BIBLIOGRAFIA

CARLINO, Federico A. O Panóptico. Antropia.it, [s.l.], 6 out. 2021. Disponível em:

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira.

Salvador: EDUFBA, 2008. Disponível em:

ng.

GROTHER, Patrick; NGAN, Mei; HANAOKA, Kayee. Face Recognition Vendor Test

(FRVT) Part 3: Demographic Effects. Gaithersburg: NIST, 2019. (NISTIR 8280). DOI:

HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: Ubu Editora, 2020. Disponível em:

NUNES, Pablo et al. Mapeando a vigilância biométrica: levantamento nacional sobre o

uso do reconhecimento facial na segurança pública. Rio de Janeiro: CESeC, 2025.

SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Segurança Urbana. Programa Smart

Sampa. São Paulo: Secretaria Municipal de Segurança Urbana, 2025. Disponível em:

TIRE MEU ROSTO DA SUA MIRA. Pelo banimento total do uso das tecnologias digitais

de reconhecimento facial na segurança pública, 2024. Disponível em:

 
 
 

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