Streaming sem regras: como o Brasil virou terra livre para as plataformas globais e a indústria cultural de origem estadunidense
- Gilberto Scofield

- 17 de fev.
- 2 min de leitura

Num ambiente de plataformização social, muito se discute sobre a necessidade imperiosa
de regulação de plataformas tecno-midiáticas e do uso da Inteligência Artificial (IA), mas
pouco se fala sobre a necessidade de regulação de outro grupo de plataformas com enorme
poder de influência cultural - os serviços de streaming.
Esse mercado movimenta R$ 70 bilhões por ano no Brasil, mas cresce em um cenário de
vazio regulatório. Grandes conglomerados estrangeiros dominam o mercado, enquanto
políticas públicas seguem presas a modelos pensados para mídias tradicionais.
A curadoria algorítmica favorece padrões globais de origem estadunidense, limita a circulação da produção brasileira e enfraquece produtoras independentes, que perdem propriedade intelectual e espaço de exibição. Hoje, apenas 6,3% dos catálogos das principais plataformas são compostos por obras nacionais — número que cai drasticamente sem a Globoplay.
O debate regulatório concentra-se na Condecine e avança lentamente de forma
fragmentada. Brechas jurídicas, fusões globais e a desterritorialização das plataformas
dificultam a aplicação das leis nacionais. O Projeto de Lei 8.889/17, aprovado na Câmara
em 2025, é lentamente cozido em fogo brando nos labirintos do Senado.
Não deveria. A plataformização do audiovisual transformou o streaming em um eixo central
de poder econômico, cultural e político. A indústria, predominantemente estadunidense,
determina as dinâmicas do que se vê, como se vê e quem/o que é visto. Pior: o streaming,
desde sempre uma estratégia de soft power dos EUA, agora ganhou tração nas medidas
protecionistas do governo Donald Trump.
Regular o streaming é condição para proteger a diversidade cultural, garantir financiamento
ao audiovisual nacional e reequilibrar relações assimétricas de poder. A regulação deve
incluir cotas de catálogo, transparência algorítmica, acesso a dados e proteção à produção
independente, sob risco de o Brasil permanecer como mercado consumidor periférico no
capitalismo de plataformas.





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