Em ano de pandemia, professores e estudantes pedem adiamento do Enem
- commovimentouff
- 23 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 27 de abr. de 2020
Com aulas suspensas, alunos temem prejuízos na realização do exame em novembro

Sala de aula antes da Pandemia │Foto: Pixels
Por Mariana Trindade
O ano de vestibular é um momento de grande tensão na vida dos adolescentes. Decidir qual curso seguir, qual universidade tentar, todas essas questões permeiam a vida do vestibulando. Contudo, este ano, junto com o coronavírus, apareceram novos dilemas na vida desses estudantes.
— Eu fiquei mal, infelizmente o pré-vestibular teve que parar, até porque tem dias que somos 60 alunos na sala, e estudar em casa é muito diferente de estar na sala de aula, ali na frente do seu professor, então particularmente me senti bem incomodado — conta o estudante Vicente Dantas.
Além dos estudantes, os professores de pré-vestibular também têm suas vidas diretamente afetadas. Yuri Pinheiro, professor do Pré-Universitário Popular UFF, localizado no campus da Praia Vermelha da Universidade Federal Fluminense, relata:
— Eu estou preocupado com os alunos que não têm acesso à internet e não podem acompanhar as aulas, porque por mais que as aulas voltem no meio do ano, nós teremos pouco tempo para explorar todos os temas necessários e os alunos que não tiveram acesso às aulas online, infelizmente irão para a prova pouco preparados.
Mas ele não desanima, diante do cancelamento da UERJ ele se vê positivo:
— No meu ponto de vista foi bom, pois todos nós ficamos com mais tempo para conversar sobre a prova e as matérias cobradas no vestibular.
“Estou preocupado com os alunos que não têm acesso à internet e não podem acompanhar as aulas” - Yuri Pinheiro, professor do Pré-Universitário Popular UFF
O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) também está prestes a tomar novos rumos diante da pandemia do novo coronavírus. Atualmente, a prova marcada para outubro e novembro deste ano, está sendo questionada em dois projetos do senado. O PL 1.277/2020 da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), que busca alterar as diretrizes e bases defendendo a EAD (Educação a Distância) e o projeto 137/2020 do senador Izalci Lucas (PSDB-DF), que busca suspender editais do governo federal neste ano.
"Ao definir um calendário para o Enem num quadro em que todas as atividades escolares se encontram interrompidas no país, sem previsão definida para retomada da normalidade escolar, com graves impactos sobre a aprendizagem dos estudantes, o Inep e o MEC se mostram alheios às consequências sociais das medidas de distanciamento social em vigor, deixando de levar em consideração a realidade vivenciada pelos candidatos que constituem o público-alvo do exame”, argumenta o senador no texto do PDL 137/2020.
“Existe há alguns anos um trabalho sério de EAD que funciona muito bem em diversos níveis de aprendizado, mas fazer isso sob pressão é prejudicial para a saúde dos professores e dos alunos” - Yuri Pinheiro, professor do Pré-Universitário Popular UFF
Para Yuri Pinheiro, diante das condições da EAD, aqueles que não tem acesso à internet podem estudar sozinhos por meio de livros e apostilas, mas que essa não é a solução para manter a prova.
— Eu acredito que existe há alguns anos um trabalho sério de EAD que funciona muito bem em diversos níveis de aprendizado, mas fazer isso sob pressão é prejudicial para a saúde dos professores e dos alunos — opina ele.
— Os professores estão sendo obrigados a preparar aula, gravar aula, editar, subir para uma plataforma… Ou, no caso de aulas ao vivo, ter que controlar alunos dispersos por meio de uma webcam e todos os outros problemas decorrente de uma aula acontecendo em casa, com filhos, família e etc. Enfim, são ferramentas que o professor não estava acostumado a lidar e agora está precisando se desdobrar em diversas funções para manter um nível absurdo de produtividade e não perder o emprego — avalia o professor.
Durante a produção desta matéria fizemos contato com alguns cursos de pré-vestibular social localizados nas cidades de Niterói e São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, contudo, apenas o Pré-Universitário Popular UFF respondeu às nossas perguntas. De fato como ressaltou o professor Yuri Pinheiro, a pressão judicial pode impactar de muitas maneiras negativas, e a falta de perspectiva do fim da pandemia, diz muito sobre o silêncio dessas instituições.
Estudantes pedem adiamento do Enem

Sem aula, sem exame!
Com a meta de 40 mil assinaturas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), também se posicionou a favor do adiamento do Enem, publicando uma carta aberta e com campanha de assinaturas online. Os estudantes argumentam que o ministro da educação não está sendo coerente com suas decisões.
"Diferente do que diz o Ministro, é absurdo pensar que os estudantes estão em igualdade de condições nessa situação, e que atividades a distância poderiam solucionar o problema da suspensão das aulas”, escreve a UNE em carta aberta e em seu perfil do twitter no dia 1 de abril.
Quando questionados sobre o adiamento do exame, os vestibulandos declaram essa como a melhor saída. A estudante Giovana Domingues, de 17 anos, deixa claro que:
— Estava com medo de pegar a doença e passar pras pessoas da minha família que estão no grupo de risco [...]. O ENEM deve ser remarcado para uma data na qual as autoridades acreditem ser segura — argumenta a estudante.

Carta aberta à população │ Fonte: http://www.adiaenem.com.br
Vicente Dantas se mostra preocupado com a possibilidade da data do Enem ser mantida:
— Eu acho que o ENEM deve ser cancelado. Ainda com o contato com o professor online, você não recebe a estrutura necessária para fazer o ENEM, até porque não sabemos até quando isso irá se estender. Para mim é muito difícil conseguir estudar em casa, não é a mesma coisa, estando na sala de aula eu absorvo muito mais — disse o estudante.
Após os pleitos, o INEP alterou as datas de aplicação do ENEM digital para os dias 22 e 29 de novembro além das regras de solicitação de isenção da inscrição. Os novos editais foram publicados no dia 22/04. Contudo a realização do ENEM impresso permanece nos dias 1 e 8 de novembro, sem previsão de reajuste.
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